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Mestre Pádua: o pintor compulsivo

Quando chego ao atelier do Mestre José Pádua – e esta não foi, de todo, a primeira vez que o testemunhei -, ele senta-se e demora não mais de dez minutos para começar a desenhar. Antes de dizer seja o que for, marco o tempo. E atiro-lhe:

“Incrível como em apenas cinco minutos fez um desenho fabuloso!”

Ele responde-me, no seu habitual tom de brincadeira:

“ Não. Foram precisos 50 anos, querida amiga.”

Nascido a 13 de Maio de 1934, José Carlos Manuel Abrantes Pádua é natural da Cidade da Beira, Moçambique, e aí desenvolveu a sua arte.

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É autor de inúmeras ilustrações publicadas em jornais, revistas e livros, e de trabalhos de escultura e de azulejaria, bem como murais em cimento expostos nos Aeroportos de Maputo e da Beira, no Banco Pinto & Sotto Mayor, no Montepio de Moçambique, no Banco de Crédito Comercial e Industrial, entre muitos outros. Destaca-se, ainda, o seu trabalho no Bank of Lisbon & South Africa, em Joanesburgo.

Além destas importantes obras contam-se, ainda, painéis em casas particulares.

Entre todos estes trabalhos, houve um ou outro que o levou ao hospital, porque a sua saúde se foi ressentido, mas a sua obra foi crescendo e expandindo-se, até na última vez que esteve internado, já neste mês de Novembro de 2014. E ri-se, enquanto me diz, mostrando o desenho:

“ Vi logo que estava bom quando consegui pintar este Cristo… antes disso, a minha mão ainda tremia”

Pádua retrata essencialmente o povo moçambicano, e pinta-o de todas as cores. Cada desenho seu deixa-me fascinada. E o Mestre desenha ainda nus e Cristos.

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Conta-me, sorrindo, que cada vez que pinta um nu se redime depois com a pintura de um Cristo. Pintar Cristos é algo que o fascina, como se sentisse a Sua dor. “Aquelas cordas que O prendem à cruz fazem qualquer um morrer asfixiado em 3 dias, e a dor …”, aquela dor atroz que ele imagina, que quase o persegue. Por entre os milhares de quadros e desenhos que enchem o seu estúdio, o Mestre tropeça e diz, sempre com um ar satisfeito e brincalhão “agora ia dizendo uma asneira e lá tinha de pintar outro Cristo.”

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Pintar, para Pádua, é uma necessidade. É um pintor compulsivo. Não pode ver um papel em branco. Até nos versos dos cheques chegava a fazer desenhos. “Um dia” disse-me ele “estava ao telefone com um amigo e, enquanto falávamos, fiz um desenho na capa dos cheques.” O que prova que nenhum papel em branco lhe resiste. No café, onde se encontrava com os amigos, “a malta dizia: olhem, vem aí o Pádua” e “todos faziam um traço de qualquer maneira no guardanapo”, pois “sabiam que eu os iria completar”.

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Já na escola, a professora dizia-lhe que quem iria preparar a sala para o Natal era ele. Trabalho que, imagino eu, não só lhe agradava, como o fazia, sem dúvida, na perfeição.

É um homem feliz, dono de um grande coração e de uma alma brincalhona, mas parte dela ficou (está ainda) em Moçambique, nas terras de África que um dia teve de deixar para trás, como muitos outros portugueses. E fala desse assunto com alguma tristeza, ao mesmo tempo que recorda tudo o que lá viveu. E foi uma vida plena de alegria, que ele procurou que fosse sempre contagiante.

Chega a arrepiar ouvi-lo a falar das suas aventuras africanas com amigos como Malangatana ou o pai de Mia Couto. Ou imaginá-lo numa viagem à América para fazer uma exposição, em que antes da inauguração já tinha vendido todos os desenhos! Ou, ainda, naquele dia 21 de Novembro de 1965, em que fez a 1ª exposição em Salisbúria, Rodésia, e em apenas duas horas vendeu 23 das suas obras.

Não menos arrepiante foi ouvi-lo dizer que todos os seus trabalhos, feitos entre os 15 e os 40 anos de idade, foram queimados em Moçambique, quando “o pintor do povo”, como lhe chamavam, se viu obrigado a abandonar a casa construída apenas um ano antes, e que estava cheia de painéis da sua autoria, “uma casa diferente” diz-me ele. Já com saúde fraca, resolveu partir para a Rodésia, enchendo um vagão com alguns dos seus pertences, incluindo parte da mobília.

“Perdi tudo!”– lamenta – “mas o que mais me custou foi quando me roubaram o chapéu, devo tê-lo pousado nalgum sítio e desapareceu! Isso é que foi um duro golpe!”

O chapéu, explica-me, tinha pertencido ao cantor e actor norte-americano Roy Rogers, que conheceu numa caçada. Depois de Pádua lhe fazer a caricatura, Roy ofereceu-lhe o seu chapéu branco, que fora feito especialmente para o famoso actor, e até tinha o seu nome gravado no interior. De tudo o que desapareceu, nada se comparou a esta perda. Conta-me que esta foi a mais dura prova por que passou nas terras quentes de África.

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Sem saber o que lhe dizer, sorrio. Ao mesmo tempo que penso como é grande este homem. Um homem à antiga. Daqueles ainda recheados de valores que dignificam o ser humano. Pádua não é só um grande pintor do nosso tempo, é também um ser humano gigantesco.

Sinto-me privilegiada por ter amigos assim! Bem-haja Mestre!