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Férias com charutos

Uma ponta de um charuto é tudo o que resta desta história.

Descemos as escadas para irmos ao encontro dos amigos que nos esperavam no hall do hotel. Encontrávamo-nos todos tão elegantes que não resistimos a elogiarmo-nos uns aos outros, com ironia e algum sarcasmo à mistura. Estávamos tão determinados a divertirmo-nos, e como tempo era o que não nos faltava, resolvemos tomar um aperitivo antes do jantar, não para abrir o apetite, pois estávamos todos capazes de comer uma vaca, mas porque sim. Afinal estávamos em férias.

O barman, um cubano moreno, bem constituído com os músculos todos em 3D, tinha um olhar doce e serviu-nos com profissionalismo a bebida que cada um pediu, irradiando simpatia por todos os poros. Pouco tempo passou para que todos nós mais parecêssemos amigos que outra coisa. Juan já só nos queria servir novas bebidas e, de sugestão em sugestão, procurava saber quais as que ainda não havíamos provado. Quando se apercebeu que conhecíamos praticamente todas, argumentou que como aquelas ele preparava nunca tínhamos bebido.

Como é fácil de imaginar a experiência corria lindamente e a alegria, essa, subia em flecha. Pela minha parte saí de lá depois de beber duas “margaritas”, pois apesar de já ter bebido muitas em vários lugares, o rapaz do bar tinha razão, como as que ele fez…nunca! Mas eu não servi muito de exemplo, na medida em que fui bastante comedida. Houve quem tivesse ingerido, ou pior misturado, “pinãs coladas” com “cubas libres”, provado o delicioso “daiquiri” feito pelo Juan e ainda, verificado se as “margaritas” eram, realmente como ele as gabava.

Claro que chegámos atrasadíssimos ao restaurante chinês que havíamos marcado, mas fomos recebidos como se tivéssemos chegado a horas.

Parece-lhe impossível, termos ido jantar a um chinês em Cuba?
Pois a nós também, já na altura.

Ríamo-nos disso e fazíamos piadas, que descarrilavam a cada segundo acerca do restaurante onde entrámos para comer uma travessa de “chop suey” de vaca, onde desejávamos que não só coubesse como trouxesse uma. Começamos pelos crepes, veio o arrozito do costume e os pratos que escolhemos e terminámos com a banana frita com mel, daquelas que para se comerem têm que ser mergulhadas no gelo. Obviamente que comemos todos com os “pauzinhos”, porque nós levamos tudo, sempre, muito a sério, mesmo estando com 30º graus, pelas 9h da noite, a destilar animadamente no varandim que deixava ver as águas mornas do mar das Caraíbas.

O jantar foi perfeito, a comida estava irrepreensível e a boa disposição no auge, quando nos serviram o café e nos ofereceram mais uma bebida, desta vez digestiva, que nós aceitamos para ajudar a destruir tudo aquilo que tínhamos acabado de comer. Todos acedemos e o Marcelo, que nunca nos tinha servido durante a refeição, trouxe e deixou a garrafa na mesa, não sei de quê, mas que prometeu assim que a provámos.

Um riso sonoro instalou-se e, talvez por isso e depois de alguma confusão, o rapaz atreveu-se a oferecer-nos charutos. Afinal, percebemos depois, que ele não nos ia dar charutos, apenas pretendia vender-nos alguns. Dos três homens da mesa só um fumava, pelo que se interessou, de imediato, pela conversa e Marcelo, entusiasmado, explicou que o seu pai trabalhava há mais de 20 anos na fábrica de charutos que produzia os Cohiba, e que, por isso, tinha “acesso” aos produtos de melhor qualidade e por valores muito razoáveis. Depois de pronunciado um preço que à partida era aliciante, e com direito a ser regateado, Marcelo quis mostrar os charutos. E todos quiseram vê-los, mesmo os que não fumavam, pois o custo era tão reduzido que já se imaginavam a comprar algumas caixas para oferecer aos amigos, mal regressassem a Portugal.

Gerou-se, de novo, mais alguma confusão, pois a língua quando falada muito depressa baralha, mas os nossos maridos lá compreenderam a explicação dele. De modo algum, poderia trazer as caixas para ali, pois o medo de ser apanhado pela polícia paralisava-o, mas convenceu os nossos homens a irem com ele junto dos vestiários dos empregados do hotel, onde ele guardava as caixas num armário.

E, em minutos, vimos o Marcelo desaparecer levando com ele todos os homens da mesa, que mais pareciam os mosqueteiros a perseguir o Marcelo, que para disfarçar ia à frente.

Ao fim de meia hora de estarmos à espera deles, o restaurante acabou por fechar. Mas como nós ainda ali nos encontrávamos e assim que a empregada percebeu que eu gostava de conhaque, sugeriu servir-nos um de origem francesa e de grande qualidade.

Rimo-nos e concordámos em prová-lo. E mais uma garrafa veio para ficar na mesa. Ela corrupiava entre o interior do restaurante e a varanda onde nos encontrávamos e depois do conhaque, que era de facto óptimo, trouxe também três charutos.

Entre gargalhadas e flashes das máquinas que, irrequietas, queriam registar o momento, a Tânia teve de nos ensinar a acendê-los. Com uma guilhotina que ela trouxe cortámos a cabeça ou o rabo dele, só sei que lhe cortamos uma das extremidades e acendemo-lo na outra, mas antes disso ela rolou-o entre os dedos junto dos nossos ouvidos, enquanto dava uma explicação e nos fazia cheirar o tabaco. Era incrivelmente simpática e engraçada, o raio da cubana. Acabou por nos tirar uma foto às três, todas de charuto na mão e um cálice de conhaque na outra. E ela acabou por ficar com uma nota de 20 dólares, na mão, que era o único dinheiro que tínhamos para lhe dar.

Não sei se senti o prazer de um bom charuto ou o prazer de nos sentirmos iguais aos homens. Mas sei que estávamos, definitivamente, “armadas aos cágados”. Quase parecia um Al Capone, de charuto na boca, no tempo em que Cuba lhe serviu para os seus negócios ilícitos. E nestas palhaçadas reparámos que eles nunca mais chegavam e que já se tinham separado de nós, há quase duas horas.

Estranhámos, mas as gargalhadas voltaram, cada vez mais sonoras por culpa da nossa imaginação. Primeiro, degolámo-los como aos charutos, depois roubámo-los e abandonámo-los nus à beira de uma estrada ou seria que apenas estariam a ser arranhados por algumas cubanas. Cansadas e incomodadas por tanto devaneio, perguntámos à Tânia porque seria que eles demoravam tanto. Ela nem sabia para onde eles tinham ido, nem sabia quem era o Marcelo. Afinal ela ainda só ali estava por não poder abandonar o local de trabalho, enquanto não nos retirássemos. 

Os nossos risos apagaram-se e começámos a bofar por todo o lado. Interrogámos a rapariga que parecia estupidificada, pois não nos compreendia, nem sabia do que estávamos a falar.

Uns calores novos começaram a subir-nos à cabeça, quando confirmámos que eles tinham partido para cima de duas horas e enquanto decidíamos qual a melhor atitude a tomar, vimo-los a virarem uma coluna e a dirigirem-se para nós.

Rimos e ficámos a olhá-los, comentando como eles vinham estranhos, todos com cara de mal dispostos.

Mal se aproximaram ouviram-se três “então?”, seguidos de risadas e interpretações maliciosas à má disposição que aparentavam trazer.

Foi quando nos contaram que a coisa não tinha corrido lá muito bem.

Dali, tinham ido até às caves húmidas do hotel, descendo e descendo até verem baratas por todo o lado e ouvindo alguns ruídos que lhes sugeriam algum animal de porte maior. O Marcelo dirigiu-se ao vestuário e quando o ia abrir ouviram-se vozes de pessoas que também se aproximavam. Marcelo entrou em pânico e pediu-lhes encarecidamente que se escondessem, pois se apanhassem ali turistas, ele seria despedido.

Imaginei a cara de espanto que devem ter posto e os meus olhos abriram-se que nem um goraz. Mas as gargalhadas voltaram, enquanto eles confessaram que tinham acedido ao pedido do pobre rapaz. E assim, de repente, um viu-se dentro de um armário nojento, outro atrás do mesmo e o último debaixo de uma mesa enorme, contando baratas.

Quanto mais ríamos, mais as feições deles se agravavam, incomodados com tudo o que se tinha passado.

Quando as vozes chegaram puseram-se a falar com Marcelo, perto de uma hora. Quando os aparentes colegas de Marcelo partiram eles saíram, finalmente, para fazerem o negócio. Novas vozes se ouviram e eles viram-se obrigados a voltar aos esconderijos, desta vez com dois debaixo da mesa, para não terem dúvidas na contagem das baratas e porque não tinha havido tempo para voltar ao armário. E assim passaram a outra hora.

Mal os outros saíram, também eles quiseram abandonar aquele antro o mais depressa possível.

Voltavam enfurecidos, sem charutos e com uma vontade enorme de se enfiarem numa banheira, depois de queimarem a roupa toda.

As nossas gargalhadas ouviam-se e contrastavam com o semblante que eles exibiam.

O meu charuto tinha-se consumido. Dele apenas restava uma ponta. Guardei-a como prova de uma noite inesquecível.

E que tal sermos alegres?!

“ A alegria é a coisa mais séria da vida.”
Almada Negreiros (1893-1970)

A alegria nada tem a ver com felicidade, senão todos os bêbados eram felizes.

Está no eco de uma gargalhada, ou naquela satisfação que nos invade quando uns simples raios de sol nos atingem, nessas milésimas de vitamina D.

Imagine-se vestida de pérolas.

Isso dar-lhe-ia alguma felicidade? Ou seria apenas um momento alegre? E se o fio, onde elas estão fiadas, se partisse e a desnudasse teria um momento hilariante…ou não?!

A alegria depende de cada um de nós, do modo como encaramos o prazer de viver. Está nos mais ínfimos detalhes da vida, naqueles pormenores que, a todo o momento, parecem querer escapar-se da nossa visão e que só a nossa alegria os apanha. E, a alegria, torna-se num detector da felicidade.

Viver, para alguns, é por si só já uma alegria.

E, acredito que quem está sob esta influência, está muito mais perto da felicidade, porque quem é alegre espalha mais amor no seu caminho. Renova-se a esperança e é positivando a vida que ela nos retribui de um modo mais sorridente.

Atire os braços ao ar e agarre a sua alegria, dessa que esvoaça no ar, num dia de sol. Abra os braços para a vida e deixe que a alegria a possua, porque só assim terá a hipótese de ser feliz.

Porque é nosso dever querermos ser felizes.

E quando me olhas

E esse azul dos teus olhos, quando se fixam em algum pedaço de mim…ruboriza-me.

Talvez porque estejas nas minhas veias.

Talvez por que seja viciada em ti, nesse teu tom, que me morde todo o dia, toda a noite, quando da tua cor me visto.

Gosto desse teu azul que me aprisiona, libertando tudo o que sinto.

Fico transparente, e aí, estremeço.

Temo esse olhar que me lê.

Nem imaginas de como tenho medo.

Medo dessa cor que fez de mim uma serva.

Que não só me escravizou, como me desnudou.

Ana Carolina no Meo Arena

Surgiu no palco com o seu “violão de guerra” e hipnotizou o público com o seu vozeirão.
Foi, sem dúvida, um grande espectáculo, aquele que a Ana Carolina proporcionou, ontem, na MEO Arena. Enquanto nos embalava, intercalando algumas músicas mais recentes, com outras que todos sabemos de cor, no écran instalado no fundo do palco passavam imagens cheias de cores fortes e pequenos vídeos, muito bem seleccionados, e que, sem dúvida, fizeram realçar, ainda mais, as palavas e os sons que se ouviam no palco.
Estas imagens insinuantes, quase sempre de mulheres, esboçadas, estilizadas ou reais, a dançarem no varão ou em poses mais provocantes, apenas com a excepção de uma “milonga” interpretada por dois homens, como nos primórdios do tango, iam ilustrando as canções que cantou sobre o amor, como só ela o sabe fazer, sem qualquer tipo de preconceitos.
Houve momentos em que a sua voz parecia entrar dentro de mim, como um tambor, enquanto noutros me senti ventilada pelo som que ela produzia.
Sacudia-nos e obrigava qualquer um a levantar-se para erguer os braços, gritar, dançar. Não havia como ficar sentado.
A vontade de a ouvir e a energia que envolvia aquele recinto, quase cheio, fez-me esquecer, em alguns momentos, a péssima qualidade acústica daquele espaço. Por favor façam alguma coisa pelo som, pois foi este o único aspecto, sobretudo no princípio do concerto, que o impediu de ter ficado no lote dos memoráveis.
O espaço também não me pareceu o mais indicado para ouvir Ana Carolina. Ninguém se imagina naquele pavilhão a ouvir fado, que requer outro tipo de local. Dirão que ela não canta fado, mas canta um tipo de música que se perde naquela imensidão. Vejo-a no Coliseu…esse sim, é um ambiente acolhedor, mais indicado para a receber e com qualidades acústicas mais favoráveis ao seu género musical.
Quanto ao público era constituído, maioritariamente, por grupos de mulheres e por casais na casa dos 40/50 anos, todos muito conhecedores dos temas que estavam a ser cantados.
Uma curiosidade: num momento em que as bandas de maior sucesso já contam com elementos femininos entre os seus membros, eram apenas homens os músicos que acompanhavam a cantora.
Quanto à Ana Carolina, que tão bem canta o amor…só lhe posso agradecer as duas estupendas horas que passámos com ela.