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Ondas que nos embalam

Não foi no mar, mas tudo começou com uma onda.

Sou capaz de imaginar o jovem estudante alemão, Henrich Rudolph Hertz, dando pulos de alegria quando conseguiu provar que há ondas que viajam através da atmosfera, confirmando, assim, como a teoria de Maxwell, afinal, sempre funcionava. Abria-se, deste modo, a porta para a Rádio, tal como a conhecemos hoje.

A partir daí, entrou pelas nossas casas e nas nossas vidas um mundo totalmente desconhecido.

Fosse nas vozes melodiosas, que muitas das vezes chegavam a tocar o sensual quando, no silêncio da nossa casa, falavam connosco, fazendo-nos estremecer. Fosse nas músicas que estouravam nos nossos ouvidos, fazendo-nos vibrar. Fosse nas histórias que nos contavam ou em poemas esquecidos ou desconhecidos, mas que preenchiam o tempo, transformando muitos serões em momentos de puro prazer. Fosse, por último, nas notícias que divulgavam, puxando o mundo bem para mais perto de nós, mostrando-nos mais um pouco do que se passava à nossa volta.

Imagino também, como nesse tempo, depressa todos devem ter ficado dependentes de tão transcendente inovação. De como deve ter sido viciante carregar no botão daqueles aparelhos para nos ligarmos a esse mundo que finalmente se aproximava cada vez mais de nós, a uma velocidade estonteante, como se nos quisesse apanhar, num abraço de difícil desapego.

Quando chegaram as radionovelas, foi num eco de sucesso que estas preencheram vidas, fazendo-as sonhar. Como consigo imaginar o mulherio todo parado para as ouvir e alguns maridos fingindo-se zangados.

A onda de Hertz tinha virado um tsunami, apanhando ouvintes mortinhos para mergulharem nela e, ainda, alguns “piratas” que, ousados, a navegaram em plena liberdade.

Sempre na crista da onda, a Rádio passou por guerras, revoluções, evoluiu tecnologicamente de um modo impensável, impôs-se e fez história.

Quem, de entre nós, não ouve Rádio?

Todos os dias o fazemos. Há sempre um momento, ao longo do dia, em que a Rádio continua mareando nos nossos ouvidos.

Hoje é, sobretudo, no emprego, ou a caminho dele, no conforto do nosso carro, que ela nos aconchega. E nas inúmeras viagens que fazemos, muitas vezes é ela a nossa única companhia. E são tantas as ocasiões em que essas vozes sussurrantes que, ali mesmo ao nosso lado, nos fazem sorrir ou nos fazem pensar. Noutras, até nos levam ao atrevimento de trautear uma daquelas músicas irresistíveis que estão na moda.

Amanhã, como ontem e hoje, a Rádio continuará a ser um parceiro indispensável nas nossas vidas.

E tudo acabou por ser uma boa onda, gerando um mar de belas emoções e suaves sensações.

 

Música, uma amiga para sempre

“Sem a música, a vida seria um erro.”

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

 

Não precisamos saber música para a ouvir. Basta que ela quebre o silêncio, para que possamos escutar a vida.

Em cada nota há o toque de um prazer que nos envolve em arrepios tão afinados que surgem parecendo como se não pertencessem ali. Nascem escondidos de umas pontas de dedos, suaves e invisíveis, a deslizarem pela nossa pele. Num toque que sentimos e que nos acaricia tão fundo, que chega a beijar-nos a alma. Isto sim, é música.

Há sempre uma música que diz tudo aquilo que não somos capazes de confessar ou que não sabemos como dizer, como se a própria música nos compreendesse, dizendo simplesmente tudo o que gostaríamos de gritar.

Acreditem que há sempre uma música a falar por nós e de nós.

Uma música que só toca, para nos tocar.