E que tal sermos alegres?!

“ A alegria é a coisa mais séria da vida.”
Almada Negreiros (1893-1970)

A alegria nada tem a ver com felicidade, senão todos os bêbados eram felizes.

Está no eco de uma gargalhada, ou naquela satisfação que nos invade quando uns simples raios de sol nos atingem, nessas milésimas de vitamina D.

Imagine-se vestida de pérolas.

Isso dar-lhe-ia alguma felicidade? Ou seria apenas um momento alegre? E se o fio, onde elas estão fiadas, se partisse e a desnudasse teria um momento hilariante…ou não?!

A alegria depende de cada um de nós, do modo como encaramos o prazer de viver. Está nos mais ínfimos detalhes da vida, naqueles pormenores que, a todo o momento, parecem querer escapar-se da nossa visão e que só a nossa alegria os apanha. E, a alegria, torna-se num detector da felicidade.

Viver, para alguns, é por si só já uma alegria.

E, acredito que quem está sob esta influência, está muito mais perto da felicidade, porque quem é alegre espalha mais amor no seu caminho. Renova-se a esperança e é positivando a vida que ela nos retribui de um modo mais sorridente.

Atire os braços ao ar e agarre a sua alegria, dessa que esvoaça no ar, num dia de sol. Abra os braços para a vida e deixe que a alegria a possua, porque só assim terá a hipótese de ser feliz.

Porque é nosso dever querermos ser felizes.

E quando me olhas

E esse azul dos teus olhos, quando se fixam em algum pedaço de mim…ruboriza-me.

Talvez porque estejas nas minhas veias.

Talvez por que seja viciada em ti, nesse teu tom, que me morde todo o dia, toda a noite, quando da tua cor me visto.

Gosto desse teu azul que me aprisiona, libertando tudo o que sinto.

Fico transparente, e aí, estremeço.

Temo esse olhar que me lê.

Nem imaginas de como tenho medo.

Medo dessa cor que fez de mim uma serva.

Que não só me escravizou, como me desnudou.

Ainda o concerto de Ana Carolina

No dia do concerto o meu marido e eu decidimos, para evitar os engarrafamentos e o stress de última hora, ir jantar à zona da Expo. Escolhemos um restaurante muito perto do pavilhão, porque já o conhecíamos e por ter uma sala muito ampla, o que nos dava alguma garantia de obtermos um lugar. Como chegámos cedo apenas se encontravam lá três comensais, o que estranhámos. Durante o tempo da refeição, que foi largo, foram entrando pessoas e verificámos, no final, que apenas quinze indivíduos tinham utilizado o restaurante. “Uma gota de água” dada a capacidade do mesmo. E questionámo-nos sobre como era possível numa sexta-feira ao jantar, embora chovesse, no dia de um concerto preferencialmente vocacionado para a classe média, que o restaurante estivesse vazio. Eram quinze clientes contra seis empregados na sala e mais o pessoal da cozinha. Lamentava-se um dos funcionários, talvez mais preocupado, dizendo que há uns tempos atrás e num dia como aquele, o restaurante estaria cheio. Disse mais: não sei como iremos resistir. Saímos do restaurante com uma sensação de desconforto.

Já no pavilhão, e enquanto aguardávamos pela chegada da Ana Carolina, aproveitámos para observar o ambiente. E constatámos que os espectadores se encontravam instalados em três zonas distintas e bem delimitadas. Uma, só de cadeiras, constituía a plateia em frente ao palco e estava praticamente preenchida, sendo que a metade mais perto dele era a zona destinada aos VIP, uma elite que, embora seja normalmente possuidora de óptimas condições económicas, usufrui de bilhetes oferecidos. Outra, nas bancadas ao redor do recinto, tinha algumas zonas nuas. A última, as galerias na parte superior do pavilhão, estava completamente cheia. É evidente que a cada uma destas áreas correspondiam preços bem diferenciados. E é lícito concluir que cada uma delas representava uma classe social. E a classe média, para a qual estava reservado o maior número de lugares, estava ausente ou tinha transitado para as galerias, para a classe baixa.

Mas chegou a Ana Carolina e deixámo-nos destas elucubrações. Mas tal como veio, também partiu e tivemos que sair.
E apesar da alegria, do prazer e da satisfação que sentíamos, não podíamos evitar um nó na garganta. É muito diferente estarmos no sofá a ouvir os políticos e os analistas económicos afirmar que a classe média tem sido a mais sacrificada neste Portugal em crise, que tem tendência para desaparecer, que vai avolumar o efectivo da classe baixa, ou vermos e sentirmos com os nossos olhos e o nosso corpo como isso é verdade. E mais angustiante é perceber que ontem e hoje foram os nossos amigos e familiares, mas que amanhã poderemos ser nós. E continuamos sentados. Até quando?

Ficou, no entanto, uma nota positiva. O povo continua a gostar de música e é capaz de fazer sacrifícios por ela. Sobretudo quando é cantada em português.

Ana Carolina no Meo Arena

Surgiu no palco com o seu “violão de guerra” e hipnotizou o público com o seu vozeirão.
Foi, sem dúvida, um grande espectáculo, aquele que a Ana Carolina proporcionou, ontem, na MEO Arena. Enquanto nos embalava, intercalando algumas músicas mais recentes, com outras que todos sabemos de cor, no écran instalado no fundo do palco passavam imagens cheias de cores fortes e pequenos vídeos, muito bem seleccionados, e que, sem dúvida, fizeram realçar, ainda mais, as palavas e os sons que se ouviam no palco.
Estas imagens insinuantes, quase sempre de mulheres, esboçadas, estilizadas ou reais, a dançarem no varão ou em poses mais provocantes, apenas com a excepção de uma “milonga” interpretada por dois homens, como nos primórdios do tango, iam ilustrando as canções que cantou sobre o amor, como só ela o sabe fazer, sem qualquer tipo de preconceitos.
Houve momentos em que a sua voz parecia entrar dentro de mim, como um tambor, enquanto noutros me senti ventilada pelo som que ela produzia.
Sacudia-nos e obrigava qualquer um a levantar-se para erguer os braços, gritar, dançar. Não havia como ficar sentado.
A vontade de a ouvir e a energia que envolvia aquele recinto, quase cheio, fez-me esquecer, em alguns momentos, a péssima qualidade acústica daquele espaço. Por favor façam alguma coisa pelo som, pois foi este o único aspecto, sobretudo no princípio do concerto, que o impediu de ter ficado no lote dos memoráveis.
O espaço também não me pareceu o mais indicado para ouvir Ana Carolina. Ninguém se imagina naquele pavilhão a ouvir fado, que requer outro tipo de local. Dirão que ela não canta fado, mas canta um tipo de música que se perde naquela imensidão. Vejo-a no Coliseu…esse sim, é um ambiente acolhedor, mais indicado para a receber e com qualidades acústicas mais favoráveis ao seu género musical.
Quanto ao público era constituído, maioritariamente, por grupos de mulheres e por casais na casa dos 40/50 anos, todos muito conhecedores dos temas que estavam a ser cantados.
Uma curiosidade: num momento em que as bandas de maior sucesso já contam com elementos femininos entre os seus membros, eram apenas homens os músicos que acompanhavam a cantora.
Quanto à Ana Carolina, que tão bem canta o amor…só lhe posso agradecer as duas estupendas horas que passámos com ela.

Ondas que nos embalam

Não foi no mar, mas tudo começou com uma onda.

Sou capaz de imaginar o jovem estudante alemão, Henrich Rudolph Hertz, dando pulos de alegria quando conseguiu provar que há ondas que viajam através da atmosfera, confirmando, assim, como a teoria de Maxwell, afinal, sempre funcionava. Abria-se, deste modo, a porta para a Rádio, tal como a conhecemos hoje.

A partir daí, entrou pelas nossas casas e nas nossas vidas um mundo totalmente desconhecido.

Fosse nas vozes melodiosas, que muitas das vezes chegavam a tocar o sensual quando, no silêncio da nossa casa, falavam connosco, fazendo-nos estremecer. Fosse nas músicas que estouravam nos nossos ouvidos, fazendo-nos vibrar. Fosse nas histórias que nos contavam ou em poemas esquecidos ou desconhecidos, mas que preenchiam o tempo, transformando muitos serões em momentos de puro prazer. Fosse, por último, nas notícias que divulgavam, puxando o mundo bem para mais perto de nós, mostrando-nos mais um pouco do que se passava à nossa volta.

Imagino também, como nesse tempo, depressa todos devem ter ficado dependentes de tão transcendente inovação. De como deve ter sido viciante carregar no botão daqueles aparelhos para nos ligarmos a esse mundo que finalmente se aproximava cada vez mais de nós, a uma velocidade estonteante, como se nos quisesse apanhar, num abraço de difícil desapego.

Quando chegaram as radionovelas, foi num eco de sucesso que estas preencheram vidas, fazendo-as sonhar. Como consigo imaginar o mulherio todo parado para as ouvir e alguns maridos fingindo-se zangados.

A onda de Hertz tinha virado um tsunami, apanhando ouvintes mortinhos para mergulharem nela e, ainda, alguns “piratas” que, ousados, a navegaram em plena liberdade.

Sempre na crista da onda, a Rádio passou por guerras, revoluções, evoluiu tecnologicamente de um modo impensável, impôs-se e fez história.

Quem, de entre nós, não ouve Rádio?

Todos os dias o fazemos. Há sempre um momento, ao longo do dia, em que a Rádio continua mareando nos nossos ouvidos.

Hoje é, sobretudo, no emprego, ou a caminho dele, no conforto do nosso carro, que ela nos aconchega. E nas inúmeras viagens que fazemos, muitas vezes é ela a nossa única companhia. E são tantas as ocasiões em que essas vozes sussurrantes que, ali mesmo ao nosso lado, nos fazem sorrir ou nos fazem pensar. Noutras, até nos levam ao atrevimento de trautear uma daquelas músicas irresistíveis que estão na moda.

Amanhã, como ontem e hoje, a Rádio continuará a ser um parceiro indispensável nas nossas vidas.

E tudo acabou por ser uma boa onda, gerando um mar de belas emoções e suaves sensações.

 

Escritora