O pintor de Jazz

Para além de pintar quadros, onde podemos reconhecer algumas importantes figuras do Jazz, Xicofran tem o dom de, também, pintar música.

Quando olhamos para um quadro do “pintor do Jazz”, como ele é conhecido, algo de estranho vibra dentro de nós. Não sei se são as cores, se o movimento por onde os pincéis deslizaram, mas asseguro-vos que todas as suas obras emanam som, numa música que só Xicofran sabe tocar.

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As cores dançam, formando bailados a que os nossos olhos não resistem. O traço leva-nos para além da imaginação, faz-nos ouvir uma melodia que se solta de tudo o que Xicofran pinta. O movimento que ele confere às pinceladas marca-lhe o ritmo. Depois, é só deixarmo-nos levar pela imaginação, para que as notas improvisadas do Jazz comecem a soar dentro de nós.

Como num prenúncio do que viria a ser a sua vida futura, Francisco Fernandes nasceu em terras africanas de Angola, no seio da cultura negra, no ano de 1969, numa década em que a criatividade deste género musical se encontrava no auge com Coltrane, Miles Davis, Chet Baker, Herbie Hancock, entre muitos outros.

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Em garoto, começou por tocar viola. Hoje, ouvimos a sua música através da pintura. E, repito-vos, como é bela a melodia que resulta deste dueto em que ambas, música e pintura, saem triunfantes.

A sua obra é uma orquestra que vai dando corpo a uma espécie de sinfonia que toca a sensibilidade de todos os amantes da arte em que este maestro se move e compõe. E assim vai-nos conduzindo a interpretar, a enternecermo-nos e a apreciarmos as imagens que a sua sensibilidade desenha, em amontoados de tinta que ele vai entornando sobre as telas, tingindo-nos até à alma.

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Xicofran é um homem simples, simpático, afável. Pai de uma menina encantadora, a Francisca, e casado com a porventura única Elga sem H, que se tornou para o artista “a tal”, e com quem ele quis formar família. Uma família maravilhosa.

O seu percurso artístico passou por diversas etapas. Começou pelo curso Superior de Design de Interiores na Escola Superior de Artes Decorativas (ESAD), que terminou em 1994, e onde teve como professora a pintora Dora Iva, que o incentivou então para outros voos. Assim, nesse mesmo ano concorreu ao concurso “Jovem revelação da Amadora”, mesmo sendo de Almada. E ficou logo em 1º lugar. Mas o melhor prémio que recebeu nesse dia, como me confessa, foram aquelas palmadinhas nas costas do Mestre Artur Bual, num estímulo para que continuasse.

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Outro Mestre que conheceu pouco depois, e se tornou numa figura importante no seu percurso, foi António Inverno, que lhe transmitiu importantes conhecimentos, transformando o seu já afinado dom numa Primavera onde floresciam o “equilíbrio das telas e os magníficos pontos de luz”, técnicas que enriqueceram os seus trabalhos. Outro dos nomes mais relevantes com quem se cruzou foi João Moreira Santos, escritor e crítico de Jazz, que o conduziu para o mundo da música, apresentando-o a alguns nomes do Jazz, sendo a cantora Maria Viana um deles. Desde logo, uma grande amizade se cimentou entre os dois, que perdura até hoje numa parceria em que cada um dá o melhor que tem do seu Jazz. Nesta relação artística o facto mais saliente foram as ilustrações que o Xico fez para o livro comemorativo dos trinta anos de carreira da Maria.

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Muito mais haveria para contar sobre o trajecto de Xicofran, mas estas pinceladas já poderão retratar bem o caminho que levou este artista a ser reconhecido como o “pintor de Jazz”, ainda que o seu trabalho envolva outros temas.

Mas o que talvez vocês não saibam é que existiu um outro “Fran” no seu percurso artístico. Uma história deveras engraçada, que ele me confidenciou.

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Há alguns anos, Francisco tinha um amigo de longa data, daqueles amigos inconfundíveis, que são tão nossos que mais parecem irmãos.

Pois bem, esse rapaz, que ainda hoje permanece no rol das suas maiores amizades, chama-se António Pedroso. E de uma conversa entusiasta entre os dois, surgiu a ideia de que seria proveitoso e útil que Xico tivesse um agente que pudesse tratar dos seus assuntos, uma vez que o trabalho tinha duplicado, deixando o artista com pouco espaço para tantos afazeres. Ficou decidido que António seria esse agente, pois em comum, para além da amizade, havia uma enorme cumplicidade e confiança. 

Empolgado, António começou, de imediato, a delinear na sua mente todos as ideias que lhe pareciam interessantes para o projecto que haviam acabado por formalizar, num acordo verbal.

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Nesse mesmo dia, o amigo ligou a Xicofran, empolgadíssimo com as propostas que tinha em mente, mas antes de falar delas, disse-lhe que havia tido a ideia brilhante de arranjar, também para ele próprio, um nome artístico. E que, por isso, passaria a usar, para se apresentar como seu representante, o nome de “Pedrofran”, uma vez que Xico o chamava de Pedro, por culpa do seu apelido.

Xicofran e Pedrofran! Aquilo não soou lá muito bem a Francisco, mas acabou por aceitar, pelo fervor que “Pedro” colocara na questão e pela consideração que ele lhe merecia.

Claro que, mal o amigo começou a usar aquele nome “artístico”, surgiram algumas confusões, por causa da excentricidade do nome, e era comum pensarem que se tratava de dois irmãos, o que fez com que “fran” fosse confundido com um simples apelido familiar.

Esta história deu que falar na altura, e contada hoje por Francisco, soa engraçadíssima. Pedrofran já não é o seu representante, mas continua a fazer parte da vida de Xico, como um dos seus melhores amigos.

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O que não me admira. Porque é muito fácil ser-se amigo deste jovem “pintor de jazz”, que faz da simplicidade, simpatia e boa disposição atributos que nos levam a desejar ficar longas horas na sua companhia.

Fotos tiradas na Galeria CNAP – Clube Nacional de Artes Plásticas

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