O 25 de Abril de Maia de Loureiro, em 1974

Quarenta anos depois, o Coronel Carlos Maia de Loureiro fala deste dia com um especial orgulho e emoção.
Tinha apenas 27 anos quando, jovem alferes miliciano, mas já com uma comissão de serviço em África, foi abordado para integrar o movimento das Forças Armadas. Sem hesitar, decidiu que participaria no 25 de Abril.

Eram apenas 3, os oficiais milicianos que estavam ao corrente do “golpe”. Na véspera, Maia de Loureiro foi contactando, um a um, outros oficiais, furriéis e cabos milicianos, da sua confiança, dando-lhes conta do que se iria passar e comunicando as senhas que seriam transmitidas pela rádio.

Aprontados todos os materiais e equipamentos, a meio da tarde, estavam finalmente ultimados todos os preparativos para a coluna de Salgueiro Maia sair de Santarém, da qual Maia de Loureiro fazia parte.

Telefonou à mulher, Odete, dizendo-lhe que iria para um exercício, pelo que poderia estar ausente alguns dias sem poder dar notícias. Ouvir-lhe a voz e saber das suas filhas, Susana e Patrícia, sendo a última, uma bebé de apenas 6 meses de idade, deu-lhe alento. Afinal era por elas, e por outras como elas, que se predispunha a lutar.

Pouco passava da meia-noite e estavam ainda numa reunião onde tentavam, em vão, convencer o 2º comandante a aderir ao movimento. De ânimos alterados, a certa altura, o 2º comandante tentou ligar para o Quartel-General da Região Militar de Tomar, para os denunciar. Instintivamente Maia de Loureiro deu um pontapé no telefone e o Tenente Mansilha Assunção, hoje General, acabou por arrancar da parede os fios do aparelho.

“Às 3 da manhã, a coluna estava finalmente pronta para partir, mas na EBR PANHARD que comandava os intercomunicadores, única forma de comunicar com os condutores/apontadores da proa e da ré da viatura, não funcionavam. À boa maneira cavaleira (!) combinei com o condutor da proa, e ele aceitou prontamente, que com dois cordéis atados às platinas da farda, eu ir-lhe-ia dando indicações para parar, acelerar ou mudar de direcção!”

Partiram. Quando chegaram a Lisboa, a partir do Saldanha, já com a sua viatura em primeiro lugar e com as sirenes a tocar, Maia de Loureiro saiu da torre e agarrado ao tubo do canhão foi dando indicações, de viva voz, ao condutor. “Foi nessa altura, quando passava pela Avenida António Augusto de Aguiar onde estava instalado o Comando-Geral da PSP,que um Chefe da Polícia me faz a continência à qual eu, com toda a solenidade, correspondi!”

Alda e Maia Loureiro 2

Quis saber o que sentiu Maia de Loureiro no preciso momento, em que chegou ao Terreiro do Paço, se em algum instante se apoderou dele alguma espécie de temor ou tremor e ele sorrindo, disse-me: “ Medo?! Não! O meu medo era não estar à altura do acontecimento e que algo pudesse correr mal por minha causa…esse era o meu medo. (…) “Já no Terreiro do Paço, houve receio que tudo acabasse ali, quando a fragata 473 “Gago Coutinho” apontou os canhões para nós. O nosso susto justificava-se apenas pelo fracasso que daí podia advir.”

Sob tensão, contra as forças fiéis ao regime, onde o olhar alcança os camaradas, amigos, militares que pareciam somente estar do lado errado, não deve ser simples, nem claro, lidar com esse facto, principalmente quando não se pretende ferir esses “conhecidos” com quem um dia se conviveu. Salgueiro Maia continuava a dar ordens e disse para o jovem alferes ir parlamentar com o Major Pato Anselmo, aconselhando-o a exibir um lenço branco, sinalizando que ia em paz pedir-lhe a rendição.

Improvisando, Maia de Loureiro tirou o lenço, branco, que tinha no bolso e agitando-o dirigiu-se ao Major que, com cara de poucos amigos, lhe gritou “ Então você vem parlamentar armado?”

Maia de Loureiro, pacientemente, voltou atrás, tirou o capacete, entregou a arma e voltou ao contacto do Major, que lhe disse no mesmo tom autoritário, e ainda com a mesma cara, que não falava com alferes.

Voltou, com o Major Jaime Neves e o Capitão Tavares Almeida, e ouviu-se o vozeirão de Jaime Neves dizer-lhe “ Ou te rendes, já, ou dou-te um murro!”, entre outras frases menos próprias de serem reproduzidas.

“ A dada altura, o Salgueiro Maia disse-me que tinha uma granada no bolso para rebentar se alguma coisa corresse mal. Nem aí tive medo, mas o momento era tão conturbado, que provavelmente nem medi bem as consequências daquelas palavras.” – Recordou com orgulho.

Não são fáceis momentos como estes, onde as emoções e as ordens que se têm a cumprir, se chocam. A adrenalina nestas situações de pressão suga o raciocínio, amortecendo qualquer ímpeto. E a vontade, essa há muito que tinha deixado de ser individual, porque pelo caminho já se havia tornado colectiva. E essa vontade, agora, era vencer.

Rendido o Major que, curiosamente, estava desfardado, vestindo umas calças de montar com as respectivas botas, uma camisola de gola alta azul sob uma parka, Maia de Loureiro sentiu-se impelido a colocar-lhe o braço por cima dele, num gesto de camaradagem, numa tentativa de o acalmar, atitude até mal interpretada por alguns, lamentou o Coronel, justificando que ele não o reconhecia como um inimigo, mas como um camarada.

Teve um novo estímulo ao aperceber-se que o movimento ganhava terreno e, instintivamente, ao ver o fotógrafo, com o coração que lhe pulava dentro do peito que nem um doido, formou o “V” de vitória com os seus dedos, pressentindo que ela estava afinal tão perto, pela primeira vez.

Nada aconselhável a quem sofre do coração, Maia de Loureiro reconheceu que foi no trajecto para o Quartel do Carmo que sentiu que tudo aquilo era, de todo, para o povo, para as filhas que como as dele ganhavam assim, um Portugal melhor. Foi uma viagem inesquecível. Entre sorrisos contou-me como o jipe do Salgueiro Maia se desmantelou nesse itinerário, perdendo a capota, ficando parcialmente destruído com a euforia dos homens e mulheres que, de repente, vieram para a rua.

“Os primeiros cravos que vi, oferecidos por uma senhora, eram brancos. Só mais tarde é que começaram a surgir os vermelhos.” Acrescentou Maia de Loureiro.

Esse acto espontâneo de cidadãos anónimos fizeram-lhe experimentar a sensação de que já não havia retorno e isso fê-lo descansar e começar a respirar uma paz merecida.

Alda e Maia Loureiro 3

Cumpriam-se as primeiras 24 horas em que não dormia e, em qualquer trajecto que fizesse para cumprir novas missões, o povo acompanhava-o ou, parado pelas ruas, atirava-lhes flores, água, cigarros e, mais tarde, até um frango assado lhe caiu no colo. Recordou ele, rindo, destes peculiares detalhes.

Mas o tempo que passou no Largo do Carmo foi o êxtase. Tem imagens que não lhe saem da memória e sensações que ainda hoje o fazem arrepiar. Ver o Capitão Salgueiro Maia numa janela do Quartel do Carmo a falar ao povo, ter dado o seu ombro para Francisco Sousa Tavares subir para uma guarita da Porta de Armas do quartel, para daí tentar desmobilizar a multidão que inundava o Largo do Carmo e dificultava as operações, ou ser quase esmagado pelo carro que transportava o General Spínola na rampa de acesso à parada no interior do Quartel, são emoções que o acompanharão por toda a vida.

Passaram 48 horas sem dormir, mas, mesmo assim, antes de ir descansar telefonou à sua mulher Odete que, nessa altura, já tinha percebido em que “exercícios militares” o marido estava envolvido. Depois de saber como estava a família e de lhe relatar os últimos acontecimentos foi então dormitar umas horas.

Valeu a pena o 25 de Abril? “Valeu”, respondeu de forma rápida e convicta.

E hoje, com as condições políticas, sociais e económicas vividas pela maioria dos portugueses, seria possível um novo 25 de Abril? De imediato recebi a resposta:

“ Claro que sim! Com a garra dos novos e dos “velhos” que estão ainda muito bem para levar a cabo uma missão como essa. Venham os frangos que desta vez até os como!”

Nota: Todas as fotos foram tiradas no 4º Esquadrão do Grupo de Honras de Estado, da Unidade de Segurança e Honras de Estado, da Guarda Nacional Republicana.

A 1ª Senha transmitida pela rádio às 11h05m de 24 de Abril de 1974

1 comentário a “O 25 de Abril de Maia de Loureiro, em 1974”

  1. Inquestionável a importância do 25 de Abril, o meu agradecimento pela coragem e determinação a todos os que contribuíram para que fosse possível pudermos viver num pais em liberdade e democracia embora tão conturbada… O meu agradecimento também a ti, e ao sr coronel por partilharem episódios que de outra forma provavelmente não saberíamos.
    Quanto a outro 25 de Abril afinal já sei….será culpa da falta de frangos??????

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