” Na mesma como a lesma “

Há muitos anos, houve um pedaço de terra onde o sol nascia e se punha quase todos os dias do ano, e o seu povo, pobre, cantava uma espécie de canção muito triste e melancólica. A maior parte vivia da agricultura que aquele clima ameno favorecia e, consequentemente, havia muitos caracóis que eles aprenderam a cozinhar. Ao longo dos anos, esse prato foi-se apurando até se tornar num verdadeiro petisco, ajudando-os a matar a fome que o rei lhes impunha, mesmo tendo muitas outras terras riquíssimas espalhadas pelo mundo. Era um reino rico, muito rico, cheio de ouro e com um povo muito pobre, onde nem os caracóis escapavam.

Depois de esse rei morrer, sucederam-se outros que prometeram, de imediato, mudar a vida dessas pessoas sem nunca o terem conseguido, até que um dia acabaram com uma grande parte da agricultura, convencendo o povo de que teria uma melhor vida vendendo apenas o calor do sol. A fome, como um vírus, foi-se alastrando de ano para ano. O povo era tão sereno e submisso que, entre umas buchas de pão, às vezes ensopadas no molho dos caracóis, lá ia sobrevivendo.

Não se sabe bem como, de muito rico o reino passou a pobre, até que ficou cheio de dívidas para com outros reinos sem que em nada tivesse melhorado a vida do povo, que ao cinto teve de ir acrescentando novos furos.

Era um raio de uma terra onde só os incêndios – que lá iam queimando vivos uns caracóis -, o desemprego e a fome se desenvolviam.

E essa gente era tão boa que, apesar de descontente, resignava-se sem nunca protestar. Entre lamúrias lançadas ao vento, as pessoas conformavam-se com a má sorte de andarem de estômago cada vez mais vazio, sem quase nunca se queixarem. Ainda assim, alguns mais corajosos, talvez pela ousadia da juventude, partiram para outras terras distantes; e os que ficaram tentavam animar-se, acreditando que melhores dias viriam, num futuro que nunca diferiu do presente. Muitos acabaram a criar pequenas hortas, que despontavam em qualquer lugar, até no mais inóspito, na expectativa de acalmarem alguns estômagos mais doridos.

Contudo, esta gente era muitíssimo nobre. Pacientes e habituados que estavam a sofrer, foram-se tornando cada vez mais humanos.

Um dia, também feito de sol, um grupo decidiu lançar um repto para que se salvasse o caracol do sofrimento de ser cozido e transformado numa iguaria. O povo, sabendo bem o que era sofrer, aderiu em massa, e os caracóis começaram a desenvolver-se em lindas caracoletas que se podiam apreciar em qualquer horta, mesmo nas improvisadas.

Em pouco tempo, não havia couve ou alface, nada que fosse verde que escapasse à fome voraz destes moluscos, e eles multiplicavam-se livremente, dia após dia com a casa às costas, varrendo até as pequenitas hortas, único sustento daqueles coitados.

Mas a generosidade do povo para com qualquer animal vivo crescia e mantinha-se saudável. Era tão forte que até os ricos, para mostrarem complacência e solidariedade para com estes animais, aos quais (pelas costas) chamavam de “lesmas”, até deixaram de comer ostras vivas.

Foi assim que, pouco a pouco, todos os animais começaram a ser poupados e banidos da já escassa alimentação deste povo.

Neste reino, onde até as terras e a água há muito haviam sido vendidas para pagar as dívidas, e agora nem sobrava qualquer espécie de alimentação, as pessoas começaram a definhar e a morrer de fome, uma a uma… até desaparecerem por completo num reino que ia encolhendo.

Tão fiéis eram aos seus ideais que acabaram por morrer todos.

E assim se fez jus à profecia de um homem magro muito importante, um eurodeputado, que outrora fora gordo talvez por comer demasiados caracóis, e que vaticinara o desaparecimento daquele reino e de todos os seus habitantes, com as seguintes palavras: “Vai haver um dia em que não vai haver Portugal”. Porque, justificava ele, este povo teria de devolver as terras  roubadas aos mouros há 800 anos.

One thought on “” Na mesma como a lesma “”

  1. Alda, artigo este corajoso por verdadeiro. A verdade é imutável, incorruptível e eterna. Pode-se espernear “jus sperneandi”. E mais verdade há a um povo que vive a 365 dias ao ano de sol, e já é o mais corrupto pais do mundo sobre a redondeza da Terra. Para vencê-lo em campeonatos e maratonas de toda sorte das piores coisas a reverter-se a humanos, não será fácil, pelo menos nas projeções mais sérias – a prolatar-se nos próximos 50 anos. Este país a que me refiro: campeão em transformar montanhas em abismos, que consegue poluir e destruir cidades de um dia para outro, soterrar cidades históricas sob a lama da ganância extrativista, ampliou suas fronteiras diminuindo a dos vizinhos, para ter apenas mais o que tirar de seu povo. Tem uma elite governante de mais alto salário do planeta e campeão mundial em impostos sem contra-prestação de serviços, ou péssimos a pior. Uma dica: suas cores são verdes e amarelas e fala português. O que é… o que é? Exatamente…! Este, cujos governantes situacionais conseguiram acabar com a maior empresa [de futuro] estatal da América do Sul e quiçá do planeta, excetuando-se uns poucos países do mundo. Por meio de uma rede de dutos de corrupção jamais vista na história de um país. Nem lesmas ficaram no sítio onde grassou a devassa, nem capim ou ervas- daninhas sobreviveram. Talvez daqui a cinquenta anos se reiniciem a despontar, com menos viço mas já é uma esperança…

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