À Conversa com Carlos Prado Amorim

IMG_9999Tinha apenas 12 anos quando, pela mão dos seus pais, começou a frequentar os saraus que Amália Rodrigues fazia regularmente em casa. Iniciou, então, a convivência com artistas de vários quadrantes e alguns políticos, amigos da fadista. Os seus olhos brilham de nostalgia e saudade enquanto revive aqueles momentos e me dá a conhecer os nomes importantes que por lá passaram, todos ligados às artes. Maluda, David Mourão Ferreira, Natália Correia, Vinícius de Morais começaram, desde muito cedo, a fazer parte da vida de Carlos. Enquanto me relata como eram esses serões, fala com especial carinho da grande Amália, dizendo-me como era uma mulher simples, bonita e deveras interessante, e como absorvia toda aquela cultura que passava pelas suas mãos, como se ela fosse uma verdadeira esponja.

Relembra um dos mais famosos actores de origem mexicana, depois naturalizado norte-americano, Anthony Quinn, que se transformou num dos “gregos” mais destacados da história do cinema em “O Zorba”, e rememora como, numa dessas festas, esse talento em pessoa passou pela sua vida.

Cedo se interessou pela música brasileira, tendo sido Caetano o primeiro responsável por esse prazer. Procurou saber tudo sobre ele, comprou todos os seus discos, coleccionou tudo o que encontrou, fotos, revistas, chegando ao ponto de se deixar cativar por todos os artistas que haviam influenciado Caetano Veloso.

IMG_0004Entre esta amizade com a grande Amália e a sua paixão pela música, Carlos acabaria por formar-se… em medicina. Terminou a especialidade e chegou, até, a ser chamado na ausência do médico assistente da diva, consolidando assim laços que perduraram no tempo. Conta-me das confidências que ela lhe fazia sobre algumas figuras públicas da época e como algumas dessas pessoas lhe pediam favores. “E um pedido da Amália era uma ordem”, diz-me, abrindo o olhar. Ela ajudou muita gente! Uma grande senhora! Uma grande mulher!

IMG_0002Sempre que viaja, Carlos procura encontrar discos dos seus artistas preferidos. Diz-me que uma vez, em Hong Kong, encontrou um CD da Amália. Trouxe dois exemplares, um para ela e outro para ele. Como ela ficava feliz com estas descobertas… pois, por vezes, desconhecia certas edições. Carlos descreve estes pormenores com o tal brilho no olhar. Só não conseguiu encontrar um livro em que a Amália surgia a representar Portugal, e que se chamava “As divas do século XX”. Recorda o facto com alguma tristeza, e diz que foi a própria fadista a mostrar-lho, com orgulho. Tentou tudo para o encontrar, mas sem sucesso, porque já se encontrava fora do catálogo da editora.

IMG_0027Quando fala dos amigos, todos eles com grande afirmação no mercado, Carlos fala de amor. Do amor que sente pela música. E chega mesmo a confessar-me que, se não tivesse seguido medicina, certamente estaria hoje ligado à música, talvez fosse até produtor musical.

E assim, de ano para ano, de serão em serão, Carlos foi conhecendo os mais diferentes artistas e começou a ser convidado para outras reuniões, até chegar aos convívios do género no Brasil, país onde esses eventos se multiplicam numa escala maior.

Hoje, é amigo pessoal dos maiores nomes da música brasileira e também portuguesa. No seu iPhone estão registados os contactos pessoais e algumas fotos de artistas como Chico Buarque, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Ana Carolina, Maria Gadú, Seu Jorge. De Portugal, tem os de Marisa, Ana Moura, Rodrigo Leão, entre outros com quem pode “bater um papo” sempre que queira.

IMG_0097Recorda como conheceu Georges Moustaki, Charles Aznavour e Jane Birkin, que ficou célebre com a canção “Je T’aime, Moi Non Plus”, um enorme sucesso de 1969. Ele foi também uma das seis pessoas que Tony Bennett recebeu em Portugal, diz-me, com o olhar resplandecente.

Dou-me conta de um fenómeno estranho. Ouvir Carlos faz com que os ponteiros dos relógios andem mais depressa. Todas as histórias que nos conta estão envoltas num intimismo que, para mim, quase toca o surreal. Ouvi-lo falar de Chico Buarque soa como se eu falasse de uma irmã. Com genuinidade, vai-me contando que Chico tem três irmãs e três filhas, uma delas casada com Carlinhos Brown (cantor baiano). As irmãs dele são, também, todas artistas. A Cristina, a Ana de Holanda e a Miúcha, que é a mais velha e foi casada com o pai da Bossa Nova, João Gilberto, sendo ambos pais da Bebel Gilberto! “Uma família de talentos”, diz Carlos, sorrindo.

Todas estas vidas se entrelaçam na sua memória e vão por sua vez dar a outros nomes, e o imbecil do meu relógio continua a funcionar em modo turbo. Apetece-me despedaçá-lo, para poder continuar a ouvir todas aquelas narrativas. Porque Carlos é um bom contador de histórias, um homem que sabe chegar ao coração. Talvez por isso seja cardiologista.

Saltitando crónicas – e o meu interlocutor está pejado delas -, chegamos a uma que foi um “caso sério”.

IMG_0109Amigo de longa data de Beto, filho de Rita Lee, Carlos foi ter com a cantora ao hotel, para a cumprimentar. Quando ela lhe abriu a porta, apenas ouviu um gemido saído da garganta de Rita, numa tentativa para responder-lhe à saudação. Ele apercebeu-se de que a voz dela não conseguia emitir mais do que aquele som. Rita estava afónica e completamente desesperada, sem conseguir dizer uma palavra. De semblante triste, estava até decidida a anular o espectáculo do dia seguinte, no Coliseu de Lisboa.

Carlos não me revela o segredo, mas conta com prazer: “ Puxei das minhas armas terapêuticas e mediquei-a. No dia seguinte, fez o Coliseu vibrar com a sua voz impecável.”

Para além de cardiologista, ele é ainda professor na Faculdade de Medicina, um amante da música e um amor de pessoa.

Tínhamos de terminar. Foi com uma sensação mista de leveza, frustração, satisfação e enriquecimento, que me despedi dele. Parti com a certeza de que terei oportunidade de voltar a partilhar com o Carlos momentos inesquecíveis como aqueles que passámos juntos. Voltarei.

6 thoughts on “À Conversa com Carlos Prado Amorim”

  1. AGUARDO MAIS COMENTARIOS….A ESTE MEU MINI-BLOG DE AUTORIA DA MINHA AMIGA -ESCRITORA – ALDA CABRITA
    SAUDAÇÕES
    CARLOS PRADO DE AMORIM

  2. Parabéns pela excelente entrevista! Um texto ótimo e as fotos estão maravilhosas, despretensiosas, afáveis e felizes! As fotos refletem a personalidade do Carlos. O texto reflete a vivência do Carlos junto daqueles que usam a voz como instrumento para expressar o que lhes vai no coração. Tudo no Carlos está envolto nesse órgão essencial à vida: O CORAÇÃO. Cardiologista, apaixonado pela arte, um GRANDE SENHOR que vive a vida intensamente a cada palpitar… Porque o Carlos sabe que tudo deve ser vivido intensamente! E quem o rodeia, sejam anónimos ou celebridades sabem que a sua amizade é sincera vinda do coração e expressa no seu enorme sorriso afável, sincero, bonito…

  3. Dr. Pardo Amorim um médico excelente, prezo muito a sua atenção e dedicação, pena pensar na reforma.

    Bem haja!

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