Ana Fontão e a sua 1ª exposição individual

Resultando da simples percepção visual, a primeira impressão é a cor. Depois, vem a vontade de tocar, provar, ouvir ou cheirar. Porque só através dos sentidos conseguimos saciar o nosso ser.

E tudo isto nos pode acontecer ao olharmos um simples cheesecake. Quando se corta a primeira fatia sentimos, de imediato, as diversas texturas desse doce como se nos chamassem, atraindo-nos para novas sensações, que chegam trespassando-nos.

À primeira garfada que se derrete na boca, as texturas tomam formas, como se a bolacha da base fosse areia. Experimentamos os grumos do queijo, a gelatina solidificada, a firmeza natural dos frutos silvestres e a maciez de todo o conjunto.

O mesmo acontece com Ana Fontão. Um doce de pessoa.

IMG_4341

E a sua obra reflecte bem a cor que nos liga a fortes emoções, aos diferentes materiais que se interligaram, fosse com pincéis ou com as mãos, como se a autora tivesse explodido para depois se estampar em cada tela. Revela-nos a sua intimidade em cada pincelada, contando-nos o que lhe vai na alma.

Estes são os verdadeiros “elementos” que pairam dentro de Ana Fontão como uma “tabela pictórica” construída por ela própria.

É a primeira exposição individual da pintora, mas apresenta-nos já, como numa retrospectiva, tudo o que tem pintado desde 2008, ano em que a sua veia artística despontou. Mostra-nos as diferentes fases por onde caminhou, procurando os seus ”elementos”, brotando fogo como um vulcão prestes a entrar em erupção, estourando em cores que escorrem pela sua obra, esvaziando-se de todas as emoções que a sua inspiração alojava.

IMG_1461

Em 1960, Ana Fontão nasce em Lisboa e, por ser filha de um oficial do exército, passa os primeiros 13 anos de vida em África, entre Angola e Moçambique.

Como qualquer criança que vive toda a sua infância e adolescência naquelas terras vibrantes, Ana absorve, qual mata-borrão, um mundo completamente distinto, que começa a admirar e a amar. Adora o deserto, os embondeiros nus, o vermelho das acácias, as culturas tão díspares e tão particulares. Tudo arde dentro dela, revolucionando-a em sentimentos ora arrebatados ora calmos, em sensações contraditórias, em antónimos que fecha dentro de si, como se se tratasse de um verdadeiro tesouro que não quer esquecer.

IMG_4366

Mas não foi só a vivência em África que marcou Ana. A mãe também teve um papel relevante. Através da sua sensibilidade, do seu dom de estética, influenciou-a de modo a começar a olhar o mundo sob novas formas, fazendo-a sonhar até se enfeitiçar num imaginário sem limites.

Licenciou-se em Arquitectura Paisagista pela Universidade de Évora, em 1986, fez pós-graduação em Ordenamento do Território e Planeamento Ambiental no Contexto da Comunidade Europeia pela Universidade Nova de Lisboa, em 1993, tendo estudado, no decurso da sua licenciatura, história da arte, história da pintura, desenho, geometria descritiva, entre outras matérias que se revelaram importantes para a sua pintura.

Na sua formação, que é de base científica, a criatividade esteve sempre presente, e a sua expressão plástica surge espontaneamente, numa paixão que nela se debateu para rebentar num deslumbrante arco-íris bem delineado, num céu salpicado de nuvens brancas.

IMG_4333

E quando o corpo é pequeno para a alma, rasgam-se as emoções e tudo se projecta para a tela em ondas, num movimento onde as cores fluem do âmago, transmitindo para o exterior o seu profundo desassossego.

Tudo isto é claro. Afinal, a primeira impressão é sempre a cor.

One thought on “Ana Fontão e a sua 1ª exposição individual”

  1. Minha querida Alda, como me cativa a tua escrita. Gosto de me sentir entregue ao percurso que defines, e fascina-me a forma tão doce, surpreendente e quase sempre inesperada da tua mensagem …
    Emociono-me invariavelmente ao ler este teu texto, não fora eu também aqui uma observadora externa a mim própria. Sinto-me retratada e a viajar um pouco por tudo aquilo que me define.
    Agradeço-te profundamente este teu olhar pelo meu ser.
    Um registo que me irá acompanhar sempre.
    Um enorme beijo, do tamanho da minha emoção
    Ana Fontão

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *